Sem cerimônia
- Amanda Fraga
- 7 de nov. de 2016
- 3 min de leitura
Atualizado: 12 de mar. de 2025
"Se existe alguém contra este casamento,
fale agora ou cale-se para sempre!"
Era para ser mais uma cerimônia religiosa, um momento grandioso como geralmente é. As luzes iluminavam o famoso tapete vermelho, enquanto as belas orquídeas enfeitavam os espaços mais estratégicos da igreja, preenchendo-nos também com tamanha admiração. O noivo, inquieto, não sabia se cruzava os braços ou se os deixava livres, ao passo que os olhares atentos dos(as) convidados(as) ansiavam pela chegada da noiva naquela noite de celebração.
Eu sempre me emociono durante esta ocasião, afinal, estar presente em um casamento significa, para mim, testemunhar um passo importante na vida de um casal. Emociono-me, porque, como se trata de um sonho, projeto-me em um contexto que possivelmente viverei um dia.
No auge da minha distração, observando minuciosamente a igreja, voltei à realidade com um barulho por perto semelhante a uma discussão. O fundo musical, que trazia harmonia ao cenário do casamento, não era páreo para a confusão que tomava forma do lado de fora da igreja. Não demorou para um amontoado de gente prostrar-se em frente ao prédio, impedindo que outras pessoas pudessem partilhar daquela cena intrigante. Sem perder tempo, corri em direção ao fundo da igreja, saí pela lateral e dei de cara com um homem e uma mulher se esbofeteando.
– Aquela não é a noiva?! – incrédula, perguntei à senhora que estava ao meu lado.
Em questão de instantes, o buquê de noiva encontrava-se despetalado. O laquê também não tinha sido o suficiente para segurar o seu penteado e o vestido já se encontrava em pedaços.
– Você roubou o meu homem!!! – disse o desconhecido.
– O quê??? Você está louco?! Ele é o meu noivo!!! – retrucou a futura esposa.
Relutante, o rapaz continuou:
– Não! Ele era meu companheiro, até você aparecer e tomar ele de mim! Mas você não vai conseguir, sua $%@#*!!!
– Em nome de Jesus, parem com isto!!! A casa do Senhor deve ser respeitada! – ordenou o padre.
O caos estava instalado: a mãe do noivo desmaiou; a irmã da noiva pegou o rapaz desconhecido desprevenido, dando-lhe uma rasteira em defesa da quase recém-casada; e eu não sabia se corria para bem longe dali ou esperava tudo aquilo acabar. O noivo, constrangido, correu para dentro da igreja, e, com tamanha fúria e desespero, acionou a Polícia Militar e o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU). Quando retornoh, indo ao encontro do homem que interrompeu o seu casamento, avistou uma viatura passando pelo local, que àquela altura havia percebido a movimentação estranha em frente à igreja. Os transeuntes, curiosos, tomaram a fachada do prédio, registrando, por meio de fotos e vídeos, a troca de farpas entre a noiva e o desconhecido.
Ao descerem da viatura, os policiais abordaram a noiva descabelada juntamente com o entojado rapaz, o (des)conhecido penetra. Para sanar o fato, o noivo, imediatamente convocado por um policial militar (PM) barbudo, ficou cara a cara com aquele que se sentira vítima de uma suposta traição e decidiu fazer justiça, literalmente, com as próprias mãos, justamente no dia do casamento do ser amado. No entanto, o desconhecido fitou o noivo e, ao analisar aquele homem de terno e gravata de cima a baixo, naquele instante se deu conta de que cometera um terrível engano.
– Então, você é o noivo?! Ma... Mas você não é o Mário! Quem é você? – indagou.
– Mostre-me o seu documento! – ordenou o PM ao noivo, referindo-se à carteira de identidade.
— Como se vê, eu não sou o tal Mário. E este homem... Eu... Eu nem o conheço! – falou o noivo ao policial. E, irritado, voltou-se ao desconhecido, decretando:
— Agora, saia daqui! Vá embora do meu casamento!
Àquela altura, ninguém podia mais crer no que estava acontecendo: o que parecia mentira, era real; o que parecia real, era engano. Como proceder?
A noiva, sentindo-se humilhada e confusa, correu em direção ao carro, abandonando o seu noivo naquele cenário constrangedor. Os profissionais do SAMU, anteriormente acionados, assim que chegaram ao local analisaram os sinais vitais da mãe do suposto Mário, a qual ainda se recuperava do desmaio. O padre, visivelmente contrariado e surpreso com aquele acontecimento, retirou-se do ambiente externo da igreja rumo ao altar, enquanto o rapaz que havia cometido o estrago naquela noite de celebração era conduzido pelos policiais até a delegacia. Os vídeos e as fotos, uma vez registrados, já circulavam pela internet, rendendo grandes curtidas e comentários aos autores das publicações.
Já o noivo, muito abalado, instalou-se na escada da igreja. Fitando o mar, buscava no horizonte respostas para o que se sucedeu. E embora estivesse rodeado de pessoas, no fundo, sentia-se mesmo apenas em companhia do próprio vazio que lhe restou.


Comentários