Ponto final
- Amanda Fraga
- 28 de jun. de 2024
- 3 min de leitura
Atualizado: 12 de fev.
Unidade de Pronto Atendimento (UPA), 28 de junho de 2024.
Em mais uma segunda-feira, eu a vi a beira do leito 2 da sala de observação feminina. Sua boca continha um grito sufocado, um pedido de socorro não atendido. Seu coração guardava sucessivas frustrações, ao passo que seus olhos entregavam um grande cansaço devido à dedicação a aquela enferma ao seu lado, a quem muito amava. Em seu íntimo havia a sensação de que tudo estava fora do lugar, nada fazia muito sentido... Mas, ali, ela não é o meu foco, tampouco a única pessoa acometida por uma crise existencial naquele momento: os nove acamados, ainda que em níveis de lucidez ou de consciência diferentes, também não entendiam muito bem as razões pelas quais a vida os colocou ali. Sabiam, entretanto, que adoecer é natural, assim como o processo de envelhecimento e o encontro comigo, um dia, serão inevitáveis.
Ao fitar cada semblante, procurei quem tanto me aguardava para cumprir a minha diária e incessante missão. No leito 7, uma paciente cujo diagnóstico era o de bacia deslocada inquietava-se. Apesar de sua dificuldade para deambular, levantava-se constantemente, fazia menção de que iria embora, discutia com os profissionais de saúde e rogava praga ao filho, que, mais uma vez, negou-lhe o pedido de tomar uma “pinga” para aplacar a dor que tanto a afligia.
– Dorme um pouco, dona Carmen... A senhora não deve nem ficar levantando assim, ainda mais sozinha, porque o seu problema pode se agravar! Desse jeito vou chamar a assistente social – alertou uma das técnicas de enfermagem enquanto socorria a paciente do leito 4.
– Eu quero ir me embora e não preciso de ninguém me segurando! Tô com dor até agora, e vocês não me deram um AAS! Eu vou panhar um carro pra ir pra outra UPA! – preciso destacar que o nível de lucidez daquela senhora oscilava (aparentemente, passava por fortes crises de abstinência). Para ela, era como se zerasse cada dia; não tinha ideia de que estava sob os cuidados médicos há quase uma semana.
– Ah, minha mãe, quem vai embora sou eu! A senhora tá muito teimosa, não aguento mais! Ninguém tá suportando mais, não! – falou o filho, caminhando em direção à saída.
Enquanto isso, no fundo da sala, onde estava o leito 5, identifiquei uma idosa que necessitava de uma intervenção diferente da qual fora submetida. Embora rodeada de enfermeiras e técnicas de enfermagem dispostas a realizarem vários procedimentos (como ajustes no balão de oxigênio, aferição da pressão arterial e da saturação, administração de medicamento por via venosa etc.), em uma dessas tentativas para mantê-la viva, as profissionais se entreolharam, pois sabiam que nesta batalha nem sempre são capazes de me deter. E, assim como um sopro, em uma fração de segundos, todos da sala escutaram em alto e bom som: BIIIIP!!!
— Chamem o maqueiro para levá-la – disse uma das enfermeiras.
O silêncio "abaixo de zero" tomou conta da sala. Familiares, amigos e enfermos, espantados, acabaram de presenciar a idosa que há dias estava ali, lutando pela vida, não ter a mesma sorte de dona Rosinha, a qual obteve alta no dia anterior, e todos vibraram como se da família fossem.
Após aquele episódio – que, se por um lado, é triste, mas por outro pode ser considerado um alívio para a alma –, as pessoas ali presentes passaram a se questionar: "Será que haverá mais alguma vítima entre nós enquanto enfrentamos uma longa espera pela regulação?". Apesar de não saberem ao certo o que estava por vir, a única certeza de que realmente tinham era a de que eu havia passado por ali e, a qualquer momento, poderia retornar, disposta a colocar um ponto final na história de alguém.


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