Infâncias
- Amanda Fraga
- 16 de jan. de 2018
- 2 min de leitura
Atualizado: 21 de mar. de 2025
“[...] Não podemos conceber uma infância única, homogênea, uniforme
para todas as crianças (isso nem seria possível). Podemos dizer que
os estudos atuais falam de “infâncias” ou de uma “infância plural”.
(MARTINS FILHO, 2006; JAVEAU, 2005, p. 12).
Era um dia ensolarado. Uma criança de mais ou menos 10 anos andava na praia da Boa Viagem, na cidade de Salvador, com um objetivo aparentemente diferente de aproveitar as suas férias em pleno verão – ao menos, não no primeiro momento de sua chegada. Aquela criança, diferentemente das demais, fitava os meninos e as meninas com um olhar de quem desejava participar das brincadeiras e desfrutar daquela infância que talvez se apresentasse como distinta de sua realidade.
Diante do mar, que se apresentava como um convite ao suor escorrendo em seu rosto, e a faixa de areia, na qual algumas crianças brincavam, o clima não era sentido pelo seu corpo da mesma maneira, pois a sensação que chegava aos seus pés poderia ser considerada uma "tortura" devido à alta temperatura do sol a pino. Mas, provavelmente, aquilo não era nada comparado à necessidade de vender balas e amendoins naquela fase da vida.
Comovidos com a cena, um casal, além de comprar todos os itens apresentados pela criança, ofereceu-lhe um alimento. Naquele instante, o proprietário da barraca de praia, que também observava o pequeno vendedor, ordenou ao menino:
– Traga o seu copo pra eu colocar gelo! – deduzindo que a bebida oferecida já estava quente.
Sem resistir, o garoto correu em direção ao rapaz da barraca e retornou para o lugar onde estava acomodado o gentil casal, sentando-se também à mesa. Observando a paisagem, comeu alguns bolinhos de acarajé. Em seguida, retirou um pacote de amendoim de sua mochila para complementar o lanche da tarde, e, gentilmente, ofereceu à filha do casal. Com a negação da menina, ele continuou ali, conversando e analisando o movimento da praia e das crianças na areia...
Àquela altura, já havia contado um pouco de sua história de vida. Morador de um bairro vizinho, os seus pais, quem viviam de "bico", precisavam de ajuda para complementar a renda mensal – razão pela qual estava ali, diariamente vendendo.
Após aquele diálogo, o garoto saiu visivelmente grato, sobretudo pelas vendas daquele dia. Sem olhar para trás, seguiu o seu caminho com uma leveza nas mãos, já sem as mercadorias, e uma aparência aliviada pelo dever cumprido naquela tarde. Contudo, algo provavelmente continuaria ali, em seus ombros: a carga da responsabilidade, em certa medida, por parte do sustento de sua família. Peso este persistente, decorrente da estrutura de um sistema desigual e que naturaliza a existência desse tipo de "infância plural".


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