A dor da saudade
- Amanda Fraga
- 13 de set. de 2023
- 2 min de leitura
Atualizado: 9 de mar. de 2025
🎵 "[...] Toda dor é por enquanto
A alegria verá meu rosto sem lágrimas [...]".
(Toda dor é por enquanto - Marcos Almeida).
Ao mesmo tempo em que a classificamos como abstrata e intangível, a saudade tem a capacidade de nos tocar, sufocando-nos com lembranças que nos transportam para pessoas e um tempo-espaço por vezes longínquo, até mesmo impossível de ser acessado em uma nova experiência. Quando menos se deseja senti-la, surge sem pedir licença, explorando territórios particulares que um dia julgávamos pertencer somente a nós.
Não raramente a saudade nos desfalece diante da possibilidade de afetar a nossa qualidade existencial, lembrando-nos de nossa condição humana e do quanto podemos ser/estar vulneráveis. Isso porque há momentos em que sobrevivemos a uma sucessão de episódios que oscilam entre picos de tranquilidade e de dor: há dias nos quais a saudade se camufla – de repente para sair de cena voltando mais forte –, e quando se vê, retorna capaz de tomar o nosso fôlego e desregular a nossa emoção.
Como um ciclo, não bastasse o domínio de nossa mente, machuca o coração; não se contentando em acessar nossos sentimentos, invade os pensamentos, quebrando qualquer muralha da razão. Por isso, atesto: a saudade dói – e não é pouco! Porque senti-la requer muito mais que partir-se ao meio, mas entregar-se e quebrar-se por inteiro. E depois, em meio aos estilhaços, precisarás encontrar meios de remendar-se para adquirir uma outra forma diferente daquela que um dia você já foi. Como é impossível voltar ao estado anterior, moldamo-nos e, surpreendentemente, assumimos formas nunca vistas, pois com ela aprendemos a nos reinventar, transformando-nos em quem jamais fomos.
A saudade dói, também, porque mesmo não se tratando de uma dor física, pulsa na alma, fazendo-se misteriosa, subjetiva, nem sempre visível aos olhos de outrem... Assim, obrigamo-nos a aprender a lidar com ela, cada um a seu modo, sem a menor noção ou garantia de quando perderá força e, de fato, livre nos deixará.
A saudade dói, porque a alma suplica, doente, por uma remediação. No fundo, só almejamos encontrar algo capaz de aplacar as angústias, apagar as memórias e dissipar toda dor que, de tempos em tempos, insiste em fazer morada em nosso interior.
Infelizmente não há no mundo um antídoto, uma fórmula mágica ou uma receita para nos resguardar de senti-la com todo combo de emoções que ela pode nos proporcionar. Através destas palavras posso somente reafirmar que a saudade dói, também com a compreensão irrefutável de que nada é para sempre – porque, sim, "toda dor é por enquanto".


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